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A história propriamente dita é a história da vida: sua origem, seu desenvolvimento, sua vitória sobre os obstáculos. A vida tende para uma plenitude.
Também a história de cada ser humano, de cada um de nós, coincide com a história de sua vida: o processo que vai desde a fecundação do óvulo até o fim natural da existência humana.
O embrião, portanto, não é parte do corpo da mãe. Ele é um membro da espécie humana. É um novo sujeito de direitos. Deve ser tratado como fim e não como meio. Tratar como fim é respeitar a sua dignidade de ser humano. Tratar como meio é manipulá-lo como se fosse um simples organismo vivo, uma coisa. Isso nem a ciência pode fazer.
A vida é o fundamento da ética, isto é, do sentimento do dever. O ser humano quando toma consciência pela primeira vez de sua presença no mundo, se percebe como sendo depositário do dom da vida. Percebe-se como responsável pela sua vida e pela vida de seus semelhantes.
Deus é o senhor da vida. Não só possui a vida em plenitude, mas Ele é a fonte da vida. A vida humana iniciou-se, como recorda o livro do Gênesis, como um sopro divino sobre a matéria. Por isso mesmo, a vida é um dom sagrado. Merece um respeito especial. É também um dom fundamental: suporte para os outros dons.
Infelizmente, a existência humana está cheia de paradoxos, de contradições, inclusive com relação ao dom da vida. De um lado, temos o exemplo de mulheres, que exultam de alegria e encanto quando percebem que receberam o dom da maternidade. Exultam de alegria e encanto quando, pela primeira vez, tomam a criança recém-nascida em seus braços. Temos o exemplo de pais que acolhem com amor e ternura, a vida mesmo quando limitada por defeitos, mesmo quando vai durar apenas algumas horas, alguns dias ou semanas. A mídia frequentemente dá noticias de pessoas que arriscam a própria vida para salvar a vida de seus semelhantes. A mídia noticia, com entusiasmo, as descobertas da ciência genética destinadas a melhorar a qualidade da vida ou prolonga-la.
De outro lado, existe a postura daqueles que destroem vidas inocentes mesmo antes de seu nascimento. Existem pais que abandonam os filhos recém-nascidos. Existem também aqueles que destroem a vida provocando miséria e praticando injustiças. Temos ainda aqueles que participam de campanhas destinada a promover a descriminalização do aborto ou, até mesmo, legaliza-lo. Estas pessoas se esquecem que o direito à vida é um direito natural. Não é conferido pela mãe, nem pela família, nem pela sociedade nem pelo Estado. É um direito inerente a natureza do ser humano. Portanto um direito anterior à família à sociedade, ao Estado.
A Igreja defende a vida de modo radical e intransigente, antes de tudo como um direito natural. Se ela não o fizesse, seria infiel não só à sua missão, mas também à sua identidade. De fato, a igreja nasceu de um evento que é a expressão da vida em plenitude: a ressurreição de Cristo. A Igreja faz parte da novidade que a ressurreição de Cristo provocou na história. Chamar a Igreja de atrasada é fundamentalista porque ela defende a vida de modo radical e intransigente, é inverter a ordem das coisas: chamar o bem de mal e chamar o mal de bem. Quando a sociedade inverte essa ordem moral, ela corre o risco de destruir-se a partir de dentro.
A Igreja defende a vida não só com palavras, mas com ações concretas, que são as suas diversas pastorais. Recordo, a titulo de exemplo, a Pastoral da Família, a Pastoral da Criança, a Pastoral da Sobriedade, a Pastoral do Meio Ambiente, na Diocese de Lorena, a Comissão pela Defesa da Vida e a Sociedade de Médicos Católicos.
A Pastoral da Família proclama que a família é o santuário da vida. De fato, aquele espaço mais adequado para o surgimento e o desenvolvimento da vida, merece o nome de santuário, pois a vida é um dom sagrado.
A Pastoral da Criança, presente em todas as paróquias da Diocese, tem salvado milhares de vidas com meios muito simples: pesagem mensal das crianças, uso do soro caseiro e também uso de matérias, ricas em proteínas que frequentemente jogamos fora, como a casca de banana e a casca de mandioca.
A Pastoral da Saúde, quem cuida dos doentes pobres, lembra a todos que a vida, além de ser um dom é também uma tarefa.
A Pastoral da Sobriedade tem salvado muitos jovens da escravidão do alcoolismo e das drogas.
A Pastoral do Meio Ambiente procura levar a todos a tomar consciência que devemos usar os recursos da natureza, mas não abusar. Quando destruímos a natureza ou a prejudicamos através da poluição, estamos destruindo as condições de vida, sobretudo das gerações futuras.
O evento, que estamos realizando nesta noite, quer que tomemos consciência que devemos ser servidores da vida. Servidores da vida desde seu inicio na fecundação até o seu término natural. Seguidores da vida que nasce forte e sadia, mas também servidores da vida que nascem frágeis e com limitações. Servidores da vida devem ser as religiões, pois a vida e um dom supra religioso. Servidores da vida devem ser os partidos políticos, pois a vida é um dom suprapartidário. Servidor da vida deve ser o Estado de direito. Função do Estado é cuidar da vida e promovê-la, e não fazer a destruição da vida (como é o caso da legalização do aborto) medidas de política sanitária.
Termino está reflexão recordando o mandamento que não foi dado por Deus, mas também por Ele gravado em nossos corações: não matarás!
O quinto mandamento do Decálogo proíbe não apenas tirar a vida do próximo. Ele tem também um sentido positivo. “Não matar” significa respeitar e promover a vida.
Obs.: Essa reflexão foi feita por Dom Beni na abertura da sessão sobre a vida humana, realizada, na Cúria Diocesana, pela Comissão Diocesana de Defesa da Vida, pela Sociedade de Médicos Católicos de Lorena e pela Pastoral da Saúde.
Dom Benedito Beni dos Santos
Bispo Diocesano de Lorena |