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REMAR PARA ÁGUAS MAIS PROFUNDAS

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  REMAR PARA ÁGUAS MAIS PROFUNDAS

João Paulo II escolheu como tema do grande jubileu da encarnação, celebrado no ano de 2000, as palavras de Cristo aos Apóstolos: "lançai as redes para águas mais profundas" (Duc in altum). No Evangelho, a barca é o símbolo da Igreja; o mar designa o mundo; os pescadores são os apóstolos, os primeiros missionários.
Com essa ordem que Cristo deu aos apóstolos, ele mostrou não só que o evangelho deve ser anunciado a todos os povos da terra, mas também que a missão da Igreja deve responder a todos os desafios do mundo. Por isso, a primeira tarefa da Igreja é anunciar o Querigna às pessoas e aos povos.
O exemplo dos Apóstolos, sobretudo de Pedro e Paulo, mostra que o anúncio querigmático é a primeira Boa-Nova a ser proclamada. O anúncio dever ser feito na força do Espírito e baseado no testemunho pessoal. Não se trata, pois, de um anúncio decorado e recitado mecanicamente, mas de um anúncio encarnado na própria vida. Consiste na proclamação de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, como único salvador. Sem ele, estamos perdidos. De fato, todos aqueles que se salvam, quer saibam ou não, quer tenham consciência desse fato ou não, salvam-se pela mediação de Jesus Cristo, o Filho de Deus.
A referencia à morte redentora de Cristo é componente do anúncio querigmático. Sem ela, não é possível compreender o alto preço da graça salvifica – a vida do Filho de Deus: "Fostes comprados por alto preço", escreve Pedro.
A resposta ao anúncio querigmatico é uma resposta pratica e existencial, pois envolve toda a pessoa. Trata-se da conversão: arrependimento dos próprios pecados e adesão a Jesus Cristo, entregando a ele a própria vida. Trata-se de um encontro pessoal. "O inicio do ser cristão, afirmou Bento XVI, não consiste numa grande idéia nem numa decisão ética, mas num acontecimento: o encontro com uma pessoa, que muda horizonte da vida e aponta para um rumo definitivo".
A vida em Cristo se realiza na comunidade de seus discípulos ( a Igreja), na qual se ingressa pelo batismo. A Igreja não é apenas uma instituição que considera Jesus de Nazaré seu fundador e, por isso mesmo, mantém viva a lembrança dele e conserva sua mensagem. A Igreja possui um centro vital. Ela é uma comunidade de graça e salvação. É o "Corpo de Cristo". Nela está presente os Senhor glorificado, exercendo os seus senhorio, o seu poder salvifíco. A Igreja é uma realidade muito rica. Une o visível e o invisível, o humano e o divino, o institucional e a graça.
Além de ser um anúncio encarnado na própria vida, o kerigma é um anúncio contextualizado. O contexto em que os primeiros missionários – os Apóstolos – realizaram o anúncio compreende a perseguição religiosa a magia, a idolatria, a devassidão moral, o muro erguido entre os povos.
A pregação querigmática é um traço saliente dos diversos movimentos e novas comunidades no seio da Igreja Católica. Realizam o anúncio no contexto de uma sociedade secularizada. Na medida em que uma sociedade se seculariza, ela se torna pluralista. Já não existe uma interpretação hegemônica da realidade. Em todos os campos da vida humana, inclusive no religioso, as interpretações são diversificadas. A manifestação do pluralismo religioso tem valorizado a publicidade, utilizando-a para conquistar novos adeptos.
Outro elemento do contexto é a sociedade urbana que, na realidade, é uma nova civilização: novo modo de relação das pessoas entre si, com as coisas e com Deus. O homem urbano possui necessidades religiosas especificas: aspiração ao espiritual, ainda que vaga, necessidade de encontrar na religião força para enfrentar as dificuldades do cotidiano. Às vezes, o homem urbano procura, na religião, não a verdade, mas a utilidade: a libertação de todos os seus males.
Pertence ainda ao contexto a realidade da globalização, possibilitada pelo desenvolvimento da tecnologia e pela difusão e rapidez da comunicação. No mundo globalizado, a felicidade, além de ser entendida como bem particular, é colocada na busca de bens materiais. Torna-se sinônimo de consumo.
Entre os católicos, a pregação querigmática é assumida por diversos movimentos, sobretudo, os clérigos e leigos da RCC. Eles fazem uso abundante da Sagrada Escritura como fonte de resposta para os problemas cotidianos. Procuram transmitir a Palavra encarnada no testemunho de vida. Envolvem o corpo na transmissão da mensagem: movimentos dos braços, da cabeça. Evangelizam através de shows. Também dão ênfase à conversão pessoal, à mudança de comportamento, à libertação dos vícios. Daí, a difusão, entre eles, das celebrações de cura e libertação. A oração em línguas coloca as pessoas num clima de mistério e emoção, que facilita a conversão.

Dom Benedito Beni dos Santos
Bispo Diocesano de Lorena

 


 
 
 
 
 
 
 
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