Mitra Diocesana de Lorena

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Meios de comunicação, pais e filhos

Entrevista com o professor José Martinez de Toda

 
 

«Meios de comunicação social: um desafio para a educação» é o tema da recém-publicada mensagem de Bento XVI por ocasião da Jornada Mundial das Comunicações Sociais, que se celebrará em 20 de maio.

Ante esta celebração, Zenit quis entrevistar o professor Martinez de Toda, especialista na chamada «educomunicação» ou educação a partir dos meios de comunicação.

O Pe. Martinez de Toda, S.J., doutorado em educação para os meios de comunicação, é atualmente Coordenador de Comunicação em CPAL (Conferência de Provinciais Jesuítas da América Latina).

Compagina esse trabalho com aulas na UCAB -- Guayana (Univerisdade Católica Andrés Bello, Núcleo Guayana), e com trabalho pastoral em um bairro de São Félix (Venezuela).

--A reflexão deste ano para o dia das comunicações trata das crianças e dos meios de comunicação. Que bem os meios fazem às crianças?

--Pe. Martinez de Toda: Em primeiro lugar, estamos ante um fenômeno atual, que jamais se deu antes na história humana.

Tradicionalmente, o adulto, em concreto o pai e o avô, introduzia os meninos nas diversas tecnologias (do campo, do artesanato, manufatura, etc.) e as meninas nos trabalhos do lar, ou as explicavam (a máquina a vapor, o trem, a água corrente, etc.). A criança estava sempre junto de seus pais.

Depois, os adultos construíram escolas primárias, criando para as crianças um mundo separado dos adultos, mas onde estes eram sempre apresentados como bons e exemplares.

A criança também hoje aprende a internet e multimídias à margem de seus pais. Mais ainda, muitas vezes as crianças sabem mais que seus pais sobre as tecnologias da informação e das comunicações. Pela primeira vez na história se dá isso no caso das inovações dos meios tão essenciais para a sociedade e se sentem mais à vontade com isso que seus progenitores.

Hoje em dia, a televisão volta a reunir os filhos e os pais diante da tela. E a televisão faz que as crianças vejam os defeitos dos adultos, que roubam, matam, mentem...

As crianças não se contentam em ver os programas infantis. Segundo estudos, as crianças querem que 70% dos programas que vêem na TV sejam infantis, mas preferem que o resto (30%) seja de programas de adultos. As crianças sentem curiosidade por conhecer aos adultos, o que eles são.

Por isso, a criança atual é mais icônica que lógica, mais sensitiva que racional, mais intuitiva que discursiva, mais instantânea que processual, mais informatizada que comunicada.

Tudo isso indica que já não se pode ensinar como antes. O papel do professor mudou.

--Os meios ajudam, mas também limitam o tempo de jogo criativo com outras crianças, e às vezes um excesso de meios dificulta a relação interpessoal. O que fazer?

--Pe. Martinez de Toda: Este é um tema delicado, pois a muitos educadores (mais antigos) é difícil aceitar a realidade da chamada «escola paralela» dos meios de comunicação. De fato. as crianças passam mais tempo com os meios que na escola.

Já o funcionalista Lasswell dizia, na metade do século passado, que as funções são: informar, educar e entreter, ainda que muitas vezes o que fazem é desinformar, deseducar e fazer perder o tempo das crianças, que deveriam dedicá-lo ao estudo e relacionar-se com a natureza e com os outros.

O desafio é como preparar as crianças para que não sejam afetadas pelos elementos nocivos dos meios.

Gosto do título da mensagem papal: os meios são um desafio para o educador, porque são bons e maus. Portanto, é preciso saber usá-los, e não de uma forma meramente espontânea e improvisada.

É necessário estudá-los disciplinadamente como «educação para os meios» ou também «educomunicação».

--Em que consiste a educomunicação?

--Pe. Martinez de Toda: A educação para os meios, que consta de seis dimensões: trata-se de que a criança seja alfabetizada pelos meios, que seja consciente do funcionamento e técnicas dos meios, e que seja crítica; mas que também seja ativa para com os meios contra a passividade, que os use com metas e fins sociais e que saiba criar com eles.

Não se trata de novas matérias ou disciplinas no currículo. É saber integrar a educação para os meios ao ensinar língua, história, religião, etc. Trata-se de algo transversal.

Também junto ao livro de texto deve estar o DVD e outras multimídias analisadas e criticadas também desde uma perspectiva de comunicação.

--Desde a Venezuela, o que a Igreja propõe para conscientizar sobre a importância no uso dos meios de comunicação já desde a infância?

--Pe. Martinez de Toda: O Concílio Plenário da Venezuela, que concluiu há dois meses, mostra-se absolutamente consciente de como deve ser hoje em dia a educação desde suas primeiras etapas.

Mas também se mostra absolutamente pessimista sobre as mudanças que deveria haver no sistema educativo. «A escola, em geral, ainda leva pouco em conta as mudanças da cultura emergente, o que se evidencia no desenho dos programas» (pág. 370).

Inclusive, segundo estudos realizados pelo próprio governo, se constata que, ainda que a quantidade de educação escolar tenha aumentado, sua qualidade em geral descendeu nestes últimos anos.

Neste sentido, a Mensagem do Papa é muito útil, pois propõe algo que se necessita reforçar.

--O que recomendaria a pais, mães e educadores, ante a onipresença comunicativa?

--Pe. Martinez de Toda: Não é conveniente deixar os filhos somente na frente da televisão. Convém que estejam acompanhados, preferentemente por seus pais, durante o maior tempo possível, respondendo às suas perguntas, orientando-os, explicando o que vêem.

Os meios são uma grande oportunidade para que os pais se relacionem melhor com os filhos. Devemos dar-lhes o que mais nos custa, mas que é o que mais valorizam: nosso tempo.

Mas nas refeições não é aconselhável ligar a televisão. É melhor aproveitar esse momento para que os filhos contem o que fazem, o que estudam, que se comuniquem entre si e com os pais.

O intercâmbio dialógico e participativo se torna essencial hoje em dia. Assim, o conhecimento é construído em colaboração entre vários, e eles mesmos dão sentido ao que aprendem.

Fonte Zenit